Este texto foi originalmente publicado no site do padre Alexander e, posteriormente, adaptado a fim de preservar sua clareza e adequá-lo à linguagem atual.
Com o nome de Bíblia compreendem-se os Livros Sagrados da religião cujo centro é Jesus Cristo.
Partindo desse ponto de convergência, a Bíblia divide-se em duas grandes séries, uma anterior à vinda de Jesus Cristo e outra posterior.
A primeira recebe o nome de Antigo Testamento; a segunda, de Novo Testamento. Tanto o conceito como os próprios termos foram retirados das páginas bíblicas.
O Antigo Testamento é geralmente agrupado em quatro classes.
Pentateuco ou os cinco livros de Moisés
Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
Livros históricos
Josué, Juízes, Rute, Reis, Crônicas, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Ester e Macabeus.
Livros didáticos ou poéticos
Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Eclesiástico, também chamado Sabedoria de Jesus, filho de Sirac.
Livros proféticos
Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel e os Doze Profetas Menores: Amós, Oseias, Joel, Abdias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.
No Novo Testamento, o primeiro e mais eminente lugar pertence aos quatro Evangelhos: segundo São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João.
Segue-se um livro histórico, os Atos dos Apóstolos.
Vêm depois as catorze epístolas tradicionalmente associadas a São Paulo: aos Romanos, duas aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, uma a Tito, uma a Filêmon e a Epístola aos Hebreus.
Há ainda sete epístolas chamadas católicas ou canônicas: uma de São Tiago, duas de São Pedro, três de São João e uma de São Judas.
Por fim, encontra-se um livro profético: o Apocalipse.
A relação oficial dos Livros Sagrados recebe o nome de cânon, palavra que significa norma ou regra.
A ordem dos livros não é essencial à integridade do cânon. Com exceção do primeiro lugar, tradicionalmente reservado ao Pentateuco no Antigo Testamento e aos Evangelhos no Novo, a disposição dos demais livros varia consideravelmente entre manuscritos, autores, catálogos e tradições eclesiásticas.
Os livros históricos mais extensos do Antigo Testamento — Samuel, Reis e Crônicas — foram divididos em duas partes na antiga versão grega dos Setenta, sobretudo por razões práticas.
Considerando Samuel e Reis como uma única obra contínua, chegou-se à designação de quatro Livros dos Reis e dois das Crônicas, costume que passou para o mundo latino e ainda permanece em algumas tradições.
No texto hebraico, depois de adotada divisão semelhante, encontram-se dois livros de Samuel, dois dos Reis e dois das Crônicas.
Esdras e Neemias também foram chamados, em algumas tradições, de Primeiro e Segundo Livros de Esdras.
Os Livros dos Macabeus são contados separadamente, pois constituem obras distintas.
Na Vulgata, a Carta de Jeremias aparece como o sexto capítulo de Baruc.
Desde os primeiros séculos da era cristã, cada livro foi dividido em seções de extensões variadas, conforme sistemas que diferiam entre lugares e épocas.
Para superar as dificuldades produzidas por essas antigas divisões e facilitar o estudo uniforme das Escrituras, Estêvão Langton introduziu, no início do século XIII, na Universidade de Paris, a divisão em capítulos de extensão média.
Graças à sua utilidade prática, esse sistema difundiu-se pelas escolas e pelas edições da Bíblia, permanecendo em uso universal até os nossos dias.
Mais tarde, no século XVI, os capítulos foram divididos em versículos numerados.
Sante Pagnini realizou esse trabalho para o Antigo Testamento, em 1528, e Roberto Estêvão para o Novo Testamento, em 1550.
Essa numeração foi rapidamente aceita por facilitar as citações e permanece em uso em toda parte.
É necessário lembrar, contudo, que essas divisões possuem valor prático e não fazem parte da composição original dos textos.
A inerrância dos Livros inspirados
Uma consequência imediata e necessária da inspiração da Bíblia é sua inerrância ou infalibilidade.
Seria impossível compreender ou admitir que um Livro cuja autoria principal pertence à Verdade absoluta, que é Deus, pudesse conter falsidade naquilo que ensina, uma verdadeira contradição ou um erro propriamente dito.
A inerrância das Escrituras foi sempre preservada pela Tradição cristã, conforme as palavras do divino Mestre:
“A Escritura não pode ser anulada” (Jo 10:35).
Todo aquele que crê, deve fazer suas as conhecidas palavras de Santo Agostinho quando escrevia a São Jerônimo:
"Confesso a vossa caridade que aprendi a só conceder aos Livros da Escritura que chamamos canônicos a reverencia e a honra de crer firmemente que nenhum dos seus autores (humanos) pôde escrever erro algum. E se eu achasse nessas santas Letras alguma passagem que me parecesse contraria à verdade não hesitaria em afirmar ou que o manuscrito é defeituoso, ou que o interprete (ou tradutor) não seguiu exatamente o texto, ou que eu não compreendo bem."
As questões relacionadas à inerrância das Escrituras podem ser consideradas o problema bíblico por excelência.
Ela está tão intimamente ligada à inspiração que, de sua correta compreensão, depende nossa certeza a respeito da própria origem divina dos Livros Sagrados.
À primeira vista, porém, algumas dificuldades parecem opor-se a essa verdade.
Uma delas nasce de certas afirmações dos hagiógrafos relacionadas às ciências naturais.
Os conhecimentos de cosmologia, geologia e biologia avançaram imensamente ao longo dos séculos e, por isso, diferem das concepções comuns nos tempos bíblicos.
Antigamente, por exemplo, predominava a ideia de que a Terra ocupava o centro em relação aos astros do céu, inclusive o Sol. Era natural que os homens se expressassem de acordo com essa concepção.
Os hagiógrafos, acomodando-se à linguagem comum de seu tempo, não pretendiam formular afirmações científicas a esse respeito. Falavam conforme as aparências percebidas pelos sentidos.
No que diz respeito aos acontecimentos históricos, existem textos sagrados cuja interpretação é difícil.
Alguns autores chegaram a afirmar que os escritores bíblicos teriam se acomodado a certas “aparências históricas”. Essa solução, entretanto, não pode ser aceita indiscriminadamente.
A história está profundamente ligada aos mistérios da economia divina da salvação, e sua veracidade é indispensável para a afirmação desses mesmos mistérios.
Diante das dúvidas de caráter histórico, cabe ao intérprete estudar os fatos cuidadosamente, considerando todos os aspectos possíveis.
As descobertas realizadas no Egito e na Mesopotâmia lançaram nova luz sobre muitos pontos controvertidos e contribuíram para esclarecer o pano de fundo histórico das narrativas bíblicas.
Muitas outras dificuldades encontram solução no estudo atento do estilo próprio dos autores orientais e semíticos.
Frequentemente, a interpretação equivocada de uma linguagem popular, figurada ou alegórica criou problemas onde, na verdade, eles não existiam.
Línguas orientais e cânones diversos
O Novo Testamento chegou até nós em língua grega.
Apenas o Evangelho segundo São Mateus, conforme antigos testemunhos, teria possuído uma primeira redação em aramaico. Essa forma primitiva, porém, perdeu-se, e o texto preservado pela Igreja é o grego.
No Antigo Testamento encontram-se três idiomas originais.
A maior parte foi escrita e transmitida em hebraico.
Alguns capítulos de Esdras e Daniel, assim como um versículo de Jeremias, foram escritos em aramaico, língua falada na Palestina depois do exílio babilônico, no século VI a.C.
Dois livros — o Segundo dos Macabeus e a Sabedoria — foram escritos originalmente em grego.
De Judite, Tobias, Baruc, Eclesiástico e de algumas partes de Daniel e Ester, o texto original hebraico ou aramaico perdeu-se, sendo preservado por meio da versão grega.
Essas diferenças linguísticas exerceram influência sobre a extensão do cânon dos Livros Sagrados.
Os judeus espalhados pelo mundo greco-romano não encontravam dificuldade em receber livros escritos em grego. Os judeus da Palestina, porém, mostravam-se mais resistentes.
Formou-se entre eles a opinião de que, depois de Esdras, no século V a.C., o dom profético havia cessado ou se tornado incerto. Por essa razão, passaram a rejeitar a possibilidade de que novos livros inspirados fossem escritos depois daquele período.
Assim, quando os doutores da Sinagoga estabeleceram seu cânon no final do século I d.C., excluíram até mesmo obras compostas em hebraico depois da época de Esdras, como o Eclesiástico.
Resultou daí um cânon hebraico no qual não se encontram Tobias, Judite, os dois Livros dos Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, a Carta de Jeremias e determinadas partes de Ester e Daniel.
A decisão dos doutores hebreus repercutiu também entre os cristãos.
Embora no uso comum da Igreja se difundisse o cânon mais amplo, preservado na versão grega dos Setenta e utilizado pelos Apóstolos, alguns escritores eclesiásticos adotaram uma relação mais próxima do cânon hebraico.
Entre os gregos, podem ser mencionados Melitão de Sardes, Santo Atanásio de Alexandria e São Gregório de Nazianzo. Entre os latinos, Santo Hilário de Poitiers, Rufino de Aquileia e, especialmente, São Jerônimo.
Em razão dessas diferenças, passou-se a distinguir entre os “livros reconhecidos”, ou homologúmenos, aceitos por todos, e os “livros controvertidos”, ou antilogúmenos, cuja recepção não foi uniforme em todas as comunidades.
Na terminologia moderna, os primeiros são chamados protocanônicos e os segundos, deuterocanônicos.
Esses termos indicam apenas que a aceitação universal de certos livros ocorreu mais cedo, enquanto a de outros se consolidou posteriormente. Não significam uma diferença de inspiração, autoridade ou dignidade entre as duas categorias.
No Novo Testamento, por razões diferentes, alguns livros também não foram imediatamente recebidos em todas as Igrejas.
Entre eles encontram-se a Epístola aos Hebreus, a Epístola de São Tiago, a Segunda Epístola de São Pedro, a Segunda e a Terceira de São João, a Epístola de São Judas e o Apocalipse.
A esses livros também se aplicou, em determinado sentido histórico, a designação de deuterocanônicos.
Tudo o que foi dito até aqui diz respeito à terminologia tradicional utilizada pelos autores ocidentais.
Os judeus rejeitam integralmente o Novo Testamento, assim como os livros que não pertencem ao cânon hebraico.
Os protestantes ocupam uma posição intermediária. Depois das primeiras incertezas de seus fundadores, receberam integralmente o cânon do Novo Testamento. No Antigo Testamento, contudo, seguiram o cânon hebraico mais restrito, chamando de “apócrifos” os livros que outras tradições cristãs conservam em suas Bíblias.
Para os cristãos ortodoxos, o termo apócrifo costuma designar certos livros antigos semelhantes aos textos bíblicos, tanto do Antigo como do Novo Testamento, frequentemente atribuídos a personagens das Escrituras, mas que não são reconhecidos como inspirados nem possuem necessariamente doutrina segura.
Os protestantes costumam chamar os apócrifos do Antigo Testamento de “pseudoepígrafos”.
Textos e versões
Todos os Padres e Doutores da Igreja estavam firmemente convencidos de que as Divinas Escrituras, tal como saíram das mãos dos autores sagrados, eram inteiramente livres de qualquer erro.
Mas será que esses textos chegaram até nós exatamente como saíram das mãos dos hagiógrafos?
Nenhum manuscrito original, nem sequer do último autor inspirado, foi preservado até os nossos dias. O mesmo se verifica com quase todos os escritores da Antiguidade profana.
Possuímos apenas cópias posteriores.
Os copistas não receberam a mesma assistência do Espírito Santo concedida aos hagiógrafos. Por isso, durante o trabalho de copiar os textos à mão, era natural que surgissem alterações de diferentes espécies.
Ao longo do período de mil e quinhentos a três mil anos que separa as primeiras cópias da invenção da imprensa, no século XV, era praticamente impossível que dois exemplares extensos de um mesmo livro permanecessem inteiramente idênticos.
Deus, que preservou de todo erro os textos originais, não se obrigou a realizar os milhares de milagres que seriam necessários para manter intacta cada cópia produzida pelos homens.
Era suficiente conservar inalterada a substância do depósito da fé contido nos Livros Sagrados.
E a história da transmissão textual demonstra de maneira admirável como isso foi providenciado.
Os textos originais da Bíblia, particularmente os do Novo Testamento, são testemunhados por documentos tão numerosos e antigos que, também sob o aspecto da transmissão textual, a Bíblia conserva um lugar eminente na literatura mundial.
Comparada aos monumentos mais célebres da literatura profana, como as obras-primas gregas e latinas, ela resplandece como o Sol entre as estrelas.
Muitas obras de autores gregos e latinos chegaram até nós em um único manuscrito. As mais afortunadas contam com algumas dezenas de testemunhos.
Os manuscritos do Novo Testamento, porém, contam-se às centenas e aos milhares.
Possuímos códices inteiros em pergaminho datados do século IV. Por meio de fragmentos de papiro, podemos remontar aos séculos III e II, isto é, a menos de um ou dois séculos da morte de alguns autores.
Para Cícero e Virgílio, a distância entre os originais e as cópias mais antigas é de cinco ou seis séculos. Para Homero, chega a um milênio ou mais.
O testemunho direto dos códices gregos é reforçado pelas versões muito antigas, algumas já existentes no século II, e pelas abundantes citações dos escritores cristãos a partir desse mesmo período.
Nesses testemunhos antigos encontra-se a maior parte do texto presente nas traduções modernas.
É verdade que a própria abundância de manuscritos, versões e citações produziu um número proporcional de variantes.
Entretanto, a maioria dessas diferenças consiste em detalhes mínimos, que não alteram o sentido.
Além disso, a riqueza da documentação oferece à crítica textual meios muito mais eficazes para determinar a forma primitiva do texto.
Grande parte do Novo Testamento foi transmitida de maneira concordante por todos os testemunhos. Somente uma pequena parcela das variantes atinge o sentido, e pouquíssimas possuem real importância.
Nenhuma delas compromete uma verdade fundamental da fé.
Auxiliados pela crítica textual, podemos concluir que o texto genuíno do Novo Testamento está preservado não apenas em sua substância, mas também em quase todos os seus detalhes.
Quanto ao Antigo Testamento, a situação apresenta algumas diferenças.
Antes das descobertas realizadas junto ao Mar Morto, em 1947, os códices hebraicos conhecidos não eram anteriores aos séculos VIII a X d.C.
Esses manuscritos dependiam de uma tradição textual consolidada no final do século I d.C. e, portanto, posterior em vários séculos aos textos originais.
Dessa tradição recebemos o texto consonantal, isto é, composto principalmente pelas consoantes das palavras hebraicas, conforme o costume das línguas semíticas de não escrever as vogais.
Somente por volta do século VII d.C., quando o hebraico já havia deixado de ser uma língua falada no cotidiano, foram criados sinais vocálicos e inseridos no texto para facilitar a leitura e o ensino.
Entre os séculos I e X, o texto hebraico foi objeto de cuidados extremamente minuciosos por parte dos rabinos chamados massoretas, nome derivado de massorá, tradição.
A seu trabalho infatigável devemos a conservação de um texto notavelmente uniforme, cujos manuscritos apresentam variantes relativamente raras e de pouca importância.
As antigas versões gregas do século II — como as de Áquila, Símaco e Teodocião —, assim como a Peshitta siríaca, os Targuns aramaicos e a tradução latina de São Jerônimo, são posteriores à consolidação dessa tradição textual e, em grande medida, dependem dela.
Por isso, raramente testemunham uma forma muito diferente do texto hebraico massorético.
Nessas circunstâncias, torna-se ainda mais preciosa a antiga versão grega realizada no Egito, mais precisamente em Alexandria, entre os séculos III e II a.C.
Ela é chamada de versão Alexandrina, versão dos Setenta ou simplesmente os Setenta, representada pela sigla LXX.
Durante muito tempo, acreditou-se que essa tradução tivesse sido produzida coletivamente por setenta e dois sábios judeus vindos de Jerusalém a pedido do rei Ptolomeu Filadelfo, conforme a narrativa da Carta de Aristeias.
O exame interno, contudo, revela que participaram muitos tradutores, cada um trabalhando em livros diferentes e em épocas distintas. Reunidas, essas traduções formaram um Antigo Testamento inteiramente grego e mais amplo do que o cânon hebraico massorético.
O neto do autor do Eclesiástico, no prólogo de sua tradução da obra do avô, afirma ter chegado ao Egito por volta do ano 132 a.C. e encontrado já traduzidas para o grego as três grandes partes da Bíblia judaica: a Lei, os Profetas e os demais Escritos.
Assim, a versão grega dos Setenta possui para nós o valor de um testemunho de um texto hebraico do século III a.C. ou ainda mais antigo.
Ela representa uma forma textual sensivelmente diferente daquela que posteriormente se tornou comum na Palestina.
Por essa razão, constitui um dos principais instrumentos para o estudo crítico do texto hebraico.
Seu emprego, porém, exige prudência.
Alguns tradutores foram extremamente literais, enquanto outros trabalharam com maior liberdade. Não existe, portanto, um único critério que permita reconstruir em todos os casos o hebraico original a partir da tradução grega.
Além disso, o próprio texto dos Setenta, depois de atravessar tantas vicissitudes históricas, chegou até nós em manuscritos que contêm numerosas variantes.
Nem sempre é fácil, em meio a essa variedade, descobrir a forma mais antiga.
No século III, três recensões diferentes da versão dos Setenta difundiram-se amplamente pela Igreja grega.
Um século depois, São Jerônimo, profundo conhecedor da questão e testemunha próxima desses acontecimentos, escreveu no prefácio às Crônicas:
“Alexandria e todo o Egito louvam, nos seus exemplares dos Setenta, o trabalho de Hesíquio; de Constantinopla até Antioquia usam-se os exemplares do mártir Luciano; e as províncias situadas entre essas duas regiões leem os códices palestinos elaborados por Orígenes e divulgados por Eusébio e Pânfilo. Assim, todo o mundo se debate entre essa tríplice variedade.”
Felizmente, alguns manuscritos conservaram um texto anterior a essas recensões, sobretudo o célebre Códice Vaticano, identificado pela sigla B.
Esse testemunho facilita o trabalho dos estudiosos que procuram aproximar-se da forma mais antiga da versão grega.
O exame atento também revela que o texto hebraico utilizado pelos tradutores dos Setenta já apresentava diferenças em relação à sua forma primitiva.
Muitas alterações posteriormente encontradas no texto massorético parecem remontar aos séculos imediatamente posteriores ao exílio babilônico.
Quando os Setenta não oferecem auxílio suficiente para corrigir uma passagem corrompida, resta ao estudioso recorrer à crítica interna e à reconstrução cuidadosa do texto.
A legitimidade desse procedimento é demonstrada por certas passagens conservadas em mais de uma versão dentro dos próprios Livros canônicos.
O Salmo 18, por exemplo, aparece também no capítulo 22 do Segundo Livro de Samuel. O Salmo 14 é repetido, com variações, como Salmo 53.
Para o estudo do Pentateuco, também possuímos o texto conservado pelos samaritanos, pertencente a uma tradição mais antiga do que a massorética, embora contenha adaptações relacionadas ao culto no Monte Garizim.
A antiguidade do Pentateuco samaritano manifesta-se até mesmo na forma de sua escrita.
Seu alfabeto descende diretamente da antiga escrita hebraica, mais próxima das origens fenícias e, consequentemente, também das origens de nosso próprio alfabeto.
A escrita hebraica hoje utilizada, chamada quadrada por causa da forma geral de suas letras, deriva do ramo aramaico do alfabeto, adotado pelos judeus durante o período persa, por volta do século V a.C.
No estudo crítico dos textos originais, essa mudança de alfabeto também precisa ser considerada.
O primeiro dever de todo bom tradutor ou intérprete da Bíblia, como de qualquer outro livro, é certificar-se da leitura genuína, isto é, das palavras que efetivamente pertencem ao texto.
Santo Agostinho escreve em sua obra De Doctrina Christiana:
“O primeiro cuidado daquele que deseja compreender a Divina Escritura deve ser o de corrigir os códices.”
Em linguagem moderna, o princípio pode ser expresso desta maneira: depois de examinada cuidadosamente a forma genuína do texto, deve-se passar à investigação e à exposição de seu sentido.
A Vulgata
Chama-se Vulgata, por excelência, a versão latina tradicionalmente utilizada pela Igreja do Ocidente.
Em sua maior parte, ela é obra de São Jerônimo, Doutor da Igreja, que viveu aproximadamente entre os anos 350 e 420.
A Vulgata reúne três categorias de livros.
A primeira é formada pelos livros traduzidos diretamente por São Jerônimo dos idiomas originais: os livros protocanônicos do Antigo Testamento, com exceção dos Salmos, além de Tobias e Judite.
A segunda compreende os livros de antigas versões latinas que ele revisou e corrigiu à luz do texto grego: os Salmos, no Antigo Testamento, os Evangelhos e, provavelmente, outros livros do Novo Testamento.
A terceira é composta por alguns livros do Antigo Testamento que permaneceram na antiga versão latina e não foram revistos por São Jerônimo: os dois Livros dos Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc, juntamente com a Carta de Jeremias.
Por isso, embora a Vulgata não seja inteiramente obra de São Jerônimo, não é incorreto chamá-la, de maneira geral, de sua tradução, denominando-se o conjunto por sua parte principal e mais extensa.
O valor da Vulgata
Entre os antigos tradutores da Bíblia, São Jerônimo foi um dos últimos no tempo, mas o primeiro em mérito.
Ele pôde servir-se dos trabalhos de seus predecessores e, sobretudo, adquiriu, pela prática constante, um domínio das línguas bíblicas — hebraico, aramaico e grego — que dificilmente encontra paralelo entre os antigos autores cristãos.
A isso se acrescentava um conhecimento extraordinário da literatura exegética judaica e cristã.
Dotado de vasta cultura literária, preparação sólida e critérios excelentes, lançou-se ao árduo trabalho de tradução.
Começou em Roma, no ano 384, a convite do papa São Dâmaso, corrigindo os Evangelhos latinos com o auxílio dos melhores códices gregos disponíveis.
Depois, transferindo-se para a Palestina em 386, com o propósito de levar uma vida de ascetismo e estudo, estendeu o mesmo trabalho de revisão, baseado no original grego, aos livros do Antigo Testamento.
Quando já havia revisado parte deles, especialmente os Salmos, compreendeu que prestaria um serviço ainda maior à Igreja realizando uma nova tradução diretamente do texto hebraico.
Sem desanimar diante das imensas dificuldades e sem se cansar ao longo de um caminho áspero e prolongado, dedicou-se à obra com admirável constância durante aproximadamente quinze anos, entre 390 e 404, até levá-la à feliz conclusão.
Não traduziu os livros segundo a ordem em que aparecem no cânon.
Começou pelos Livros de Samuel, aos quais antepôs o famoso Prólogo Galeão, considerado uma espécie de programa de toda a sua tradução.
Passou depois aos Salmos, aos Profetas, ao Livro de Jó, a Esdras, às Crônicas e aos três livros atribuídos a Salomão: Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos.
Em seguida, retornou ao início das Escrituras, trabalhando sobre o Pentateuco, e prosseguiu por Josué, Juízes e Rute, encerrando com Ester.
Não traduziu todos os livros com o mesmo grau de dedicação.
Segundo seu próprio testemunho, trabalhou com maior cuidado na tradução e correção dos primeiros livros, especialmente Samuel e Reis.
Os três livros atribuídos a Salomão foram concluídos em poucos dias. Tobias foi traduzido em um dia e Judite em uma noite.
Essas e outras circunstâncias explicam certa desigualdade entre os vários livros, apesar da unidade fundamental da obra.
Em geral, depois de formar uma ideia clara do pensamento do autor sagrado, São Jerônimo procurava reproduzi-la com a mesma clareza em latim.
Preocupava-se mais em transmitir o sentido do que em conservar cada palavra de maneira servil, sem desprezar as exigências da boa língua latina.
Guiado por esses princípios, imprimiu à tradução uma precisão de sentido e uma beleza de expressão que se tornam ainda mais evidentes quando comparadas às versões gregas e latinas concorrentes, frequentemente excessivamente literais, rudes ou obscuras.
Ainda assim, sobretudo nos primeiros livros que traduziu, São Jerônimo por vezes conservou um literalismo rigoroso, movido por profunda veneração à Palavra divina.
Em nome da clareza, não evitou termos ou construções populares. Em suas obras originais, contudo, o brilho de sua linguagem e de seu estilo manifesta-se ainda mais intensamente.
Vicissitudes e estado posterior
As traduções de São Jerônimo não foram recebidas imediatamente no mundo latino com a estima que mereciam.
Sua difusão, dificultada pelas condições da época, foi lenta, embora contínua.
Dois séculos depois, Santo Isidoro de Sevilha, falecido em 636, já podia afirmar que essa tradução se encontrava em uso por toda a Igreja do Ocidente.
Mais tarde, o renascimento carolíngio consagrou definitivamente sua vitória sobre as antigas versões latinas.
Formou-se, assim, entre os séculos V e IX, aquilo que propriamente recebe o nome de Vulgata: uma base predominantemente jeronimiana unida a algumas partes das antigas traduções latinas.
Ao longo dos séculos, porém, a transmissão por cópias manuscritas fez com que o texto perdesse, em maior ou menor grau, parte de sua pureza inicial.
Isso aconteceu tanto por erros dos copistas como pela introdução de passagens provenientes de versões latinas mais antigas.
Não faltaram homens sábios e zelosos que se levantaram contra essa deterioração, procurando corrigir o texto corrente e reconduzi-lo à sua integridade primitiva.
Digna de memória é a revisão realizada por Alcuíno, no início do século IX, por ordem de Carlos Magno.
Apesar do valor de seus resultados e de sua influência, essa revisão também não escapou à degeneração progressiva, nem impediu a formação de outros tipos textuais, especialmente na Espanha e na Itália.
No século XIII, estudantes de toda a Europa afluíam à Universidade de Paris, levando consigo exemplares bíblicos que frequentemente divergiam entre si.
Surgiu, então, a necessidade de estabelecer um texto uniforme para o uso escolar.
Essa uniformização foi realizada sobre uma base ligada à revisão de Alcuíno, acrescida de variantes provenientes de outras tradições.
Formou-se assim um texto de valor desigual que, graças à enorme influência da Universidade de Paris, alcançou grande difusão por toda a Europa.
Primeiro circulou em cópias manuscritas. Depois da invenção da imprensa, passou também às edições tipográficas.
Gên — Gênesis
Hab — Habacuque, profeta
Hebr — Epístola aos Hebreus
Is — Isaías, profeta
Jd — Epístola de São Judas
Jdt — Judite
Jer — Jeremias, profeta
Jl — Joel, profeta
Jó — Livro de Jó
Jo — Evangelho segundo São João
1 Jo — Primeira Epístola de São João
2 Jo — Segunda Epístola de São João
3 Jo — Terceira Epístola de São João
Jon — Jonas, profeta
Jos — Josué
Jz — Juízes
Lam — Lamentações
Lev — Levítico
Lc — Evangelho segundo São Lucas
1 Mac — Primeiro Livro dos Macabeus
2 Mac — Segundo Livro dos Macabeus
Mc — Evangelho segundo São Marcos
Miq — Miqueias, profeta
Ml — Malaquias, profeta
Mt — Evangelho segundo São Mateus
Na — Naum, profeta
Ne — Neemias
Núm — Números
Os — Oseias, profeta
1 Pd — Primeira Epístola de São Pedro
2 Pd — Segunda Epístola de São Pedro
Prov — Provérbios
Rom — Epístola aos Romanos
1 Rs — Primeiro Livro dos Reis
2 Rs — Segundo Livro dos Reis
Rt — Rute
Sab — Sabedoria
1 Sam — Primeiro Livro de Samuel
2 Sam — Segundo Livro de Samuel
Sl — Salmos
Sof — Sofonias, profeta
1 Tes — Primeira Epístola aos Tessalonicenses
2 Tes — Segunda Epístola aos Tessalonicenses
Tg — Epístola de São Tiago
1 Tim — Primeira Epístola a Timóteo
2 Tim — Segunda Epístola a Timóteo
Tit — Epístola a Tito
Tob — Tobias
Zac — Zacarias, profeta
Nas referências bíblicas, o primeiro número indica o capítulo e o segundo, o versículo.
Exemplo:
Gên 10:15 significa Gênesis, capítulo 10, versículo 15.
O ponto pode separar versículos não consecutivos:
Gên 10:15.19 significa Gênesis, capítulo 10, versículos 15 e 19.
O hífen indica uma sequência contínua de versículos:
Gên 5:11-13 significa Gênesis, capítulo 5, versículos 11 a 13.
O ponto e vírgula separa diferentes grupos de capítulos e versículos:
Mt 5:11-15; 8:12-18 significa Mateus, capítulo 5, versículos 11 a 15, e capítulo 8, versículos 12 a 18.
Inspiração e interpretação
As verdades reveladas por Deus, contidas e manifestadas nas Sagradas Escrituras, foram registradas por inspiração do Espírito Santo.
Por sua fé apostólica, a Igreja recebe como sagrados e canônicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento, com todas as suas partes.
Eles foram escritos por inspiração do Espírito Santo, têm Deus por Autor e, como tais, foram confiados à própria Igreja.
Para escrever os Livros Sagrados, Deus escolheu homens e serviu-se deles com as faculdades e capacidades que possuíam.
Agindo neles e por meio deles, fez com que registrassem, como verdadeiros autores, tudo aquilo — e somente aquilo — que Ele desejava.
Tudo o que os autores inspirados, ou hagiógrafos, afirmam deve ser considerado afirmado pelo Espírito Santo.
Por essa razão, devemos crer que os Livros das Escrituras ensinam com certeza, fidelidade e sem erro a verdade que Deus quis consignar nas Sagradas Letras para nossa salvação.
Como escreve São Paulo:
“Toda a Escritura é divinamente inspirada e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para instruir na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e preparado para toda boa obra” (2 Tim 3:16-17).
Entretanto, Deus falou nas Sagradas Escrituras por meio de homens e à maneira humana.
Por isso, o intérprete, para compreender aquilo que Deus desejou comunicar, deve investigar atentamente o que os hagiógrafos quiseram significar e aquilo que aprouve a Deus manifestar por meio das palavras deles.
Para descobrir a intenção dos autores sagrados, é necessário considerar, entre outras coisas, os gêneros literários.
A verdade é apresentada e expressa de maneiras diferentes conforme se trate de textos históricos, proféticos, poéticos ou de outras formas de composição.
O intérprete deve buscar o sentido que o hagiógrafo, nas circunstâncias de seu tempo e segundo as condições de sua cultura, pretendeu exprimir e efetivamente exprimiu por meio dos gêneros literários então utilizados.
Para compreender corretamente aquilo que o autor sagrado quis afirmar, é preciso atender aos modos particulares de sentir, falar e narrar próprios de sua época, assim como às formas de expressão utilizadas nas relações humanas daquele tempo.
As Sagradas Escrituras, porém, devem ser lidas e interpretadas com o auxílio do mesmo Espírito que conduziu sua redação.
Ao investigarmos o sentido exato dos textos, devemos considerar o conteúdo e a unidade de toda a Escritura, a Tradição viva da Igreja e a harmonia da fé.
Cabe aos intérpretes trabalhar de acordo com esses princípios, procurando compreender e expor cada vez mais profundamente o sentido das Escrituras.
Esse trabalho prepara e serve ao discernimento da Igreja, à qual foi confiado o ministério de guardar e interpretar a Palavra de Deus.
Nas Sagradas Escrituras, preservadas sempre a verdade e a santidade de Deus, manifesta-se a admirável condescendência da Sabedoria eterna.
Por meio dela, podemos conhecer a inefável bondade de Deus e a grande adaptação com que Ele se serviu das palavras humanas, cuidando antecipadamente da fraqueza de nossa natureza.
As palavras de Deus, expressas em línguas humanas, tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem dos homens.
Do mesmo modo, o Verbo do Pai eterno, assumindo a carne e a fragilidade humanas, tornou-se semelhante a nós.
A inspiração bíblica não deve ser entendida como um movimento mecânico ou um simples ditado, como se o autor humano permanecesse passivo e nada de próprio colocasse no Livro inspirado.
A força inspiradora age no homem de maneira digna de sua natureza, isto é, de maneira correspondente a uma criatura inteligente e livre.
Antes de tudo, a inspiração é uma luz concedida à inteligência.
Por vezes, ela revela ao homem aquilo que antes ignorava; nesse caso, temos propriamente uma revelação.
Em outras ocasiões, apresenta com novo esplendor aquilo que o homem já conhecia.
Sob sua ação, a inteligência humana não é perturbada nem perde a consciência de si, como se dizia dos antigos oráculos pagãos.
Ao contrário, torna-se ainda mais lúcida e penetrante.
A vontade também não é arrastada violentamente contra sua inclinação. Mais livre do que nunca, segue de maneira dócil e espontânea o impulso divino.
A ação inspiradora estende-se a todas as faculdades do homem e a todas as atividades empregadas na composição do Livro, até sua redação completa.
Entretanto, toca e dirige cada faculdade conforme sua própria natureza e segundo a função que desempenha no complexo trabalho de escrever.
A inspiração, portanto, não destrói nem enfraquece a personalidade do escritor humano.
Por essa razão, podemos ver refletidos nos diversos livros da Bíblia a índole, o vocabulário e o estilo próprios de cada autor.
Conclusão
De tudo o que foi exposto, podemos compreender qual deve ser nossa atitude diante da Palavra divina, sempre fiel e verdadeira.
A fé nos permite reconhecer que o próprio Deus, Criador e Senhor do universo, é o Autor principal de toda a Bíblia.
Ele a escreveu com imenso amor por suas criaturas, que peregrinam neste mundo, a fim de guiá-las e conduzi-las à salvação.
A essas criaturas impõe-se, por todos os motivos, o espontâneo dever de ler a maravilhosa coleção de cartas que seu Deus lhes enviou.
O homem que vive sobre a terra é o destinatário da Bíblia.
É preciso que se prostre diante do Deus que se recorda dele e que lhe escreve.
É preciso que leia sua Palavra com perfeita docilidade, reverência e adoração.
É preciso que, reconhecendo-se como alvo de um amor infinito, corresponda a esse amor com todo o afeto filial de que for capaz.
É preciso que procure na Bíblia as normas que o conduzirão ao divino Salvador, Jesus Cristo, cuja plenitude pode preencher todos os vazios de sua alma.
Com São Paulo, todo aquele que crê pode encontrar, em meio às muitas vicissitudes da vida terrena, “a paciência e a consolação das Escrituras” (Rom 15:4).