A natureza da Fé.

Nossa alma possui uma habilidade espantosa para sentir Deus. Apesar dessa consciência da Divina presença ser fraca e obscura em uma pessoa que está começando a crescer espiritualmente, ela se torna mais forte e mais e mais consciente com um modo de vida virtuoso. Isto, por sua vez, reforça a fé Nele, de maneira que o sentimento interno de Deus cresce para uma forte convicção religiosa. Em tal estado a onipresença de Deus, Seu infinito amor e cuidados paternais são sentidos continuamente e isto se torna uma fonte interna de paz e força.

A fé não pode ser satisfeita com um frio reconhecimento da existência de Deus, mas se empenha em entrar em contato próximo com Ele. A alma crente naturalmente se vira para Deus como o girassol se vira para o sol. Por sua vez, uma relação ativa com Deus reforça ainda mais a fé da pessoa, de forma que sua fé se torna um guia espiritual, baseado na experiência pessoal. Em algumas pessoas particularmente dotadas a fé cresce para uma iluminadíssima e constantemente inspiradora ideia, que as conduz deste mundo das vaidades para o mundo transcendente da vida eterna. Entre essas pessoas estão a Virgem Maria, São João Batista, os Apóstolos Pedro e Paulo, e incontáveis santos como Sérgio de Radoneszh, Serafim de Sarov, João de Kronstadt, Herman do Alasca e a Bendita Xênia de Petersburgo para mencionar só alguns.

O significado da fé no desenvolvimento da pessoa está em que ela dá direção para todas as suas atitudes e poderes. Especificamente, ela dá clareza e correta vigilância para o seu intelecto, direção e propósito para sua vontade, ela enobrece e refina seus sentidos. A fé traz harmonia para o mundo interior da pessoa. Ela liberta a pessoa da base dos interesses mundanos e a conduz para um reino de experiências mais elevadas e sagradas.

Fé e conhecimento.

Em nosso tempo de muitas conquistas científicas tornou-se costumeiro fazer pouco da fé em comparação com o intelecto. O conhecimento é encarado como algo de base sólida, positivo e completamente objetivo. Fé, de outro lado, é considerada arbitrária, subjetiva e não provada. No entanto, tanto alta confiança em conhecimento científico quanto menosprezar a fé são lamentáveis ideias errôneas.

Em primeiro lugar, olhar o presente conhecimento como absolutamente certo, provado e representando a verdade absoluta é muito ingenuidade e historicamente sem base. Talvez isto seja um "ideal" de conhecimento, mas não o seu estado. Seria interessante comparar as teorias sobre matéria ao longo da história humana — durante os tempos antigos, depois no final do século dezenove, meados do século vinte, e finalmente as últimas descobertas da mecânica quântica — para se ficar convencido de que as ideias científicas mudam radicalmente a cada nova geração. "Revoluções" similares podem ser observadas em todos os campos da ciência — na física, astronomia, biologia, medicina, etc. O que era considerado inquestionavelmente verdadeiro ontem é rejeitado hoje. Quando novos cientistas se tornam populares por suas descobertas, os antigos se apagam em esquecimento. Podemos certamente ponderar que se a humanidade sobreviver ainda por mais alguns séculos, nossos descendentes irão discutir ironicamente as ideias e teorias primitivas do "negro" do século vinte.

Esse fato deveria nos convencer de que o maior valor não é o do conhecimento em si, mas a habilidade de cavar mais e mais fundo nos segredos da natureza. E aqui o propelente da ciência não é o conhecimento racionalista baseado nos cinco sentidos humanos, mas a visão intuitiva. Muitos filósofos e cientistas experimentaram uma súbita iluminação, que deu nascimento às suas descobertas e novas teorias. Intuição, como a fé, é uma habilidade muito valiosa. Ela parece a fé, mas fica um passo abaixo dela, já que intuição se relaciona com o domínio físico enquanto fé se relaciona com o espiritual.

Ninguém negará que o conhecimento do engenheiro é valioso para assuntos práticos como projeto ou construção de alguma coisa. Mas se cientistas não existissem, os quais por sua intuição abrissem os segredos da natureza, então os engenheiros não teriam nada para estudar, e o conhecimento humano seria muito limitado. Então não é conhecimento, mas sim intuição que conduz o progresso da ciência. Consideremos outro exemplo. Muitos músicos são apreciados pelas belas performances de composições musicais. Mas se não existissem compositores dotados de gênio criativo, os músicos não teriam nada para tocar. O gênio de compositores, poetas, escultores, artistas e outros como eles tem a habilidade de transformar ideias em coisas bonitas, sublimes e enobrecedoras. Então, para onde se olhe, nós vemos que a imaginação, visão intuitiva, inspiração e gênio criativo são todas forças espirituais que conduzem o progresso da ciência e da arte.

Comparando fé com outras habilidades humanas elevadas, nós vemos que ela, como intuição, alarga a razão humana. Ela dá meios de acesso àquilo que é inatingível pelos sentidos corporais. Assim, graças à fé, nós chegamos à convicção de que o mundo que nos cerca não é eterno, mas veio para a existência pela vontade do Uno Sapientíssimo Criador. Ele nos criou e nos deu uma alma imortal para que pudéssemos compartilhar com Ele de vida eterna e abençoada. De fato, a fé esteve, com freqüência, à frente das descobertas científicas, por exemplo, ao afirmar que nosso mundo não é eterno, mas apareceu há algum tempo atrás do "nada" (a teoria do Big Bang), isto é, que a origem do mundo é energia e não matéria, que há uma unidade nas leis da natureza (busca moderna por uma força unificadora), que poderiam existir outros mundos diferentes do nosso (procura por inteligências extraterrestres), e assim por diante.

Graças ao contato pessoal com Deus, os crentes recebem um especial sentido de verdade, uma faculdade para perceber que a razão ainda é incapaz de compreender. Por exemplo, a futura ressurreição dos mortos, o Julgamento Final e o início da vida eterna são todos coisas além da experiência do dia a dia e de qualquer possível verificação, e ainda assim nós percebemos esses futuros eventos como verdades certeiras e que acontecerão. Assim, fé, como um olho espiritual, nos dá a habilidade de percebermos o que está bem à frente no horizonte do futuro.

Porém, nem o olho mais sensitivo pode ver sem nenhuma luz. Similarmente, a fé precisa da luz da divina revelação. Deus, em Seu amor por nós, revelou através dos profetas, dos apóstolos e especialmente através de Seu Filho Unigênito tudo que é necessário que conheçamos para o desenvolvimento espiritual e a salvação de nossas almas. Assim Deus nos revelou o mistério da Trindade e dos Divinos Atributos, o mistério da Encarnação e o poder dos sofrimentos redentores do Filho de Deus, o significado de Sua Ressurreição para nosso renascimento espiritual e ressurreição corporal no último dia deste mundo e assim por diante.

Mas ao dizermos que a habilidade em acreditar está acima do conhecimento físico, nós não pretendemos excluir a razão ou o pensamento lógico. Ao contrário, de acordo com o plano do Criador, todas as capacidades espirituais devem estar em harmonia e reforçar uma à outra. A fé genuína não pode ser cega nem luz. Credulidade mostra preguiça da alma, ingenuidade da mente. A razão deve ajudar a fé a diferenciar entre verdade e ilusão. A exploração calma de verdades religiosas torna a fé mais definida e com base. O Senhor Jesus Cristo nunca pede fé cega de Seus servidores. Ao contrário, Ele adverte os judeus: "Examinais as Escrituras, ... e são elas que de Mim testificam" (Jo. 5: 39). Ele também sugere que os descrentes examinem os Seus milagres para ficarem convencidos do Seu Divino ministério: "Mas, se as faço e não credes em Mim, crede nas obras: para que conheçais e acrediteis que o Pai está em Mim e Eu Nele."(Jo. 10: 38). Da mesma forma, os apóstolos incitaram os primeiros Cristãos a usar razão e discrição em relação a questões de fé: "Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus; porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo" (1Jo.4: 1). Em particular os apóstolos incitaram seus discípulos a manter a sã doutrina rejeitando fábulas e invenções humanas (II Tm. 1: 13, 4: 3).

Assim, é errôneo jogar a razão contra a fé; elas se complementam e uma reforça a outra. A razão é para buscar, provar e substanciar. Ela protege a fé contra ilusões e a humanidade contra fanatismos. A fé, do outro lado, é a força motora que abre novos horizontes e nos eleva para novas alturas. Ela pode ser comparada a um motor e a razão a uma roda-guia. Sem o motor o carro não se moverá, mas sem a roda guia ele pode colidir.

Dependência da Fé do Livre Arbítrio.

"Eis que estou à porta, e bato: se alguém ouvir a Minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele, e ele Comigo" (Apoc. 3: 20). Com estas palavras nosso Salvador nos conta que Ele oferece para cada um de nós o dom da fé, mas somos nós que aceitamos ou rejeitamos este dom.

O Senhor é misericordioso para com aqueles que não acreditam não por obstinação, mas por fraqueza espiritual e inexperiência. Aqueles que procuram a verdade e lamentam sua falta de fé recebem auxílio Divino para adquirir fé. Assim, por exemplo, Cristo teve piedade do pai desesperado do jovem possuído que clamou com lágrimas: "Eu creio, Senhor, ajuda minha incredulidade" (Lc. 9: 24) e curou seu filho doente. Ele, da mesma forma, teve compaixão do apóstolo Pedro que, tendo se assustado com a tempestade, começou a afundar. Dando Sua mão para Pedro, o Senhor gentilmente o censurou, dizendo: "Homem de pouca fé, por que duvidaste?" (Mt. 14: 31). E o Senhor também não rejeitou Tomé que duvidava, e que queria ser convencido pessoalmente do milagre da Ressurreição. Tendo tido condescendência com Tomé, por Sua aparição, no entanto, não o louvou por ter se tornado um crente na base de uma prova óbvia, mas disse para ele: "Porque Me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram" (Jo. 20: 29). Em outras palavras, fé baseada em experiência externa tem pouco valor; de fato, é não-fé, mas conhecimento comum. A verdadeira fé nasce de uma experiência interna; ela exige sensitividade, uma elevação espiritual, e aí é digna de louvor.

No entanto, nós vemos o completamente oposto a esta fé buscadora nos escribas e fariseus judeus da época de Cristo. Eles obstinadamente e teimosamente se recusaram a acreditar em Jesus Cristo como o Messias enviado por Deus. Nem a realização em Cristo das antigas profecias, nem seus incontáveis milagres e ressurreição de mortos, nem sinais na natureza, nem Sua Ressurreição abalaram a descrença deles. Ao contrário, com cada novo milagre, eles ficavam mais amargurados e hostis para com Ele. Então, se nem Cristo foi capaz de despertar a fé naqueles que não queriam acreditar, é de espantar que nos nossos tempos existam tantos ateístas conscientes e empedernidos? Eles alegam que não acreditam porque não veem milagres. Mas a real razão para a descrença deles está não na falta de milagres, que ocorrem todos os dias em diferentes partes do mundo, mas na direção negativa de sua vontade. Eles simplesmente não querem que Deus exista!

O problema da descrença está intimamente ligado à malignidade da natureza humana. Porque o assunto da fé não é uma teoria abstrata, mas um ensinamento positivo que demanda certo comportamento e impõe responsabilidades definidas, nem todo mundo está querendo mudar sua vida para adaptá-la aos altos padrões morais decorrentes da fé. A fé põe em xeque a ambição de uma pessoa. Ela chama a pessoa a superar seu egoísmo, viver moderadamente, fazer o bem para os outros, até se sacrificar. Quando um homem prefere suas paixões à vontade de Deus e coloca seu próprio bem sobre o bem dos outros, então ele fará tudo o que puder para repudiar os argumentos em favor da fé. O Salvador indica que uma vontade maligna é a causa principal da descrença quando Ele diz: "Porque todo aquele que faz o mal aborrece a luz, e não vem para a luz para que suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus" (Jo. 3: 20-21).

Sendo capaz de suprimir a fé dentro de si, o homem também é capaz de reforçá-la. Voltando ao Evangelho, nós nele encontramos exemplos chocantes de fé ardente. Inspirados a esse respeito são os exemplos do centurião romano, da mulher cananeia, a mulher com fluxo de sangue, do cego de Jericó e outros similares. O Senhor repetidamente chama Seus ouvintes para imitar a fé destas pessoas. Consequentemente está em nosso poder, com a ajuda de Deus, reunir e dirigir nossas capacidades espirituais para uma fé maior. Fé, como tudo que é bom, exige esforço. Essa é a razão pela qual uma recompensa é prometida para ela: "Quem crer e for batizado será salvo; mas que não crer será condenado" (Mc. 16: 16)

Fé como a Base da esperança.

Provas e angústias são inevitáveis nesta vida temporária. Em momentos difíceis somente a fé pode dar a alguém a necessária força espiritual. Quando uma pessoa com fé fraca se desespera durante infortúnios, se sente derrotada e lamenta amargamente, a pessoa com fé se vira para Deus mais firmemente na procura de ajuda. Ela dispersa a onda de desânimo com esperança em Deus, tendo aprendido de provas anteriores que "... todo aquele que crer Nele não será confundido" (Rom. 9:33).

Angústias são os "dias cinzentos" e "tempestades" em nossa vida e são postas para testar a nossa fé. Durante tempo bom todo marinheiro pode fantasiar sobre suas habilidades, mas é durante uma tempestade que o marinheiro genuíno é revelado. Lendo as Santas Escrituras ou vidas de santos, se fica convencido de que as pessoas justas mostraram a sua fé mais obviamente durante perseguições e sofrimentos do que durante condições calmas e normais. Quando o Apóstolo Paulo se refere aos justos do Velho Testamento, ele especificamente menciona seus momentos difíceis como exemplos de fé forte. Ele assim conclui sua observação das vidas deles: alguns deles "uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; e outros experimentaram escárnio e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados aflitos e maltratados (dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos e montes, e pelas covas e cavernas da terra... — conclui o Apóstolo: "Portanto nós também, que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta: olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o Qual pelo gozo que Lhe estava proposto suportou a Cruz, desprezando a afronta e assentou-se à destra do trono de Deus" (Hb. capítulos 11 e 12).

Apesar da fé ajudar um homem a enfrentar o sofrimento com ânimo, a questão permanece: por que o Senhor permite que os justos sofram? A resposta não é nada óbvia; "Quem guiou o Espírito do Senhor? E que conselheiro O ensinou? (Isaías 40:13). Não obstante, o Apóstolo Paulo explica que "... todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus" (Rom. 8: 28). A palavra "todas" inclui angústia também. De fato, tendo ele próprio experimentado inúmeras provas durante suas jornadas missionárias, São Paulo partilha com seus discípulos o que ele apreendeu: "Pelo que sinto prazer nas fraquezas,nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco, então sou forte; porque o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza" (II Co. 12:10 e 9).

Angústias convencem o homem da instabilidade das bênçãos da vida, lembram a ele de Deus o Resgatador, da vida eterna e ensinam a ele paciência. Elas desenvolvem fortalecimento espiritual e constância em boas obras. Quando o homem não pode esperar ajuda de lugar nenhum, ele se vira para Deus com toda a sua força. E enquanto ele está perturbado pelo exterior, em seu coração ele encontra paz Divina e consolação. Esta conscientização direta de Deus é grandemente benéfica para a fé do homem. Assim, de um lado, a fé ajuda o homem a suportar suas angústias, e, de outro lado, a angústia reforça a fé nele. Por esta razão São Tiago ensinou aos Cristãos: "Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações. Sabendo que a prova de vossa fé obra a paciência" (Tg. 1:2-3).

Provavelmente porque a fé dá ao homem ânimo em tempos difíceis e serve como uma fortaleza para sua vida espiritual, nosso Senhor a denominou de pedra, dizendo: "... e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt. 16:18). Na verdade é impossível enumerar todas as perseguições de Cristãos nos dois milênios de existência da Igreja. Enquanto tantos impérios e governos poderosos caíram e desapareceram completamente da face da Terra, a Igreja de Cristo, baseada na fé Nele, está firme e permanecerá invencível até o final do mundo.

Fé como a chave para os tesouros de Deus.

A fé põe uma pessoa numa comunicação viva com Deus em oração genuína e concentrada. Quando uma pessoa entra em contacto íntimo com o Todo Poderoso, então, de acordo com as palavras do Salvador, tudo se torna possível para ela: "E tudo que pedirdes na oração, crendo, o recebereis... se tiverdes fé como um grão de mostarda (pequena como), direis a este monte: Passa daqui para acolá — e há de passar; e nada vos será impossível" (Mt. 21: 22 e 17:20). Assim, mesmo a menor fé pode fazer maravilhas desde que ela seja sadia e sã como um grão de mostarda. O grande milagroso São João de Kronstadt, falando de sua própria experiência, chamou a fé de "a chave para os tesouros de Deus."

A fé verdadeira não tem nada a ver com autoconfiança. Profundamente errados estão aqueles que confundem fé com autossugestão comum. Alguns pregadores sectários ensinam que se deve se autoconvencer do que se deseja, por exemplo, saúde, sucesso ou bem-estar — e isto é suficiente para obter a coisa desejada. Esta autossugestão se parece com uma brincadeira na qual uma criança imagina que está velejando no mar ou andando a cavalo, enquanto está sentada no chão de seu quarto. Fé construída sobre autossugestão conduz à autoilusão e a uma catástrofe espiritual.

A fé verdadeira age não pelo poder da imaginação ou auto-hipnose, mas porque junta uma pessoa à Fonte definitiva de toda vida e força — ao Deus Todo Poderoso. A fé é como um vaso com o qual se recolhe da Divina fonte, e a oração como o braço com o qual se alcança essa fonte. É importante se recorrer com prudência ao poder da fé. Porque só Deus sabe o que é bom para nós, e em oração não se deve pressionar por desejos próprios, mas estar mais concentrado em compreender qual é a vontade de Deus. Finalmente, a oração não deve ser um monólogo, mas uma conversa de dois sentidos. E em toda conversa se deve apreender a ouvir também. Quando nós oramos sinceramente para Deus. Ele nos responde em nossos corações e em posteriores circunstâncias externas.

Voltando-nos para os relatos do Evangelho, nós verificamos que aquelas pessoas que possuíram uma fé excepcionalmente forte, como, por exemplo, o centurião romano, a mulher Cananéia, os amigos do paralítico e outros, estiveram muito longe de qualquer altivez ou pathos. Na verdade, todas elas foram pessoas extremamente humildes (Mt. 8:10, 15:22, 9:2). A combinação de fé forte e humildade não é acidental. Uma pessoa profundamente crente sente, mais do que qualquer outra, a grandeza do poderio de Deus. E quanto mais ela constata isto, mais agudamente ela se torna ciente de suas limitações e deficiências. Os grandes realizadores de milagres como, por exemplo, os profetas Moisés e Eliseu, os apóstolos Pedro e Paulo, e outros como eles foram sempre destacados por profunda humildade.

Fé agindo através do amor.

Existe uma relação entre fé e boas obras? Alguns perguntam: a fé sozinha é suficiente para a salvação, ou boas obras também são necessárias? O fato de que muitos Cristãos contemporâneos opõem fé e boas obras mostra quão empobrecido e distorcido se tornou o seu conceito de Cristianismo. A fé verdadeira se estende não só sobre a mente do homem, mas sobre todos os poderes de sua alma, incluindo o coração e a vontade. Muitos pregadores contemporâneos estreitaram o conceito de fé para uma aceitação racional dos ensinamentos do Evangelho. Eles declaram: "Somente acreditai e vós sereis salvos." O erro aqui, assim como com a visão farisaica, consiste no entendimento legalista e formal de salvação. Os judeus do tempo de Cristo ensinavam justificação pela realização dos preceitos da Lei Mosaica, enquanto os protestantes, desde o tempo de Lutero, ensinam justificação pela fé somente, independentemente de boas obras. O Cristianismo tradicional, no entanto, pede um completo renascimento espiritual: "Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é" (II Co. 5: 17). A salvação não é somente a recolocação da terra no paraíso, mas o estado cheio de graça da alma renovada do homem. De acordo com nosso Senhor: "... eis que o Reino de Deus está entre vós" (Lc. 17: 21). Nesse estado renovado uma harmonia completa é estabelecida entre as convicções internas e o comportamento externo. Aqui boas obras se tornam frutos que são naturalmente dados por uma árvore sadia. E, ao contrário, falta de boas obras testemunha sobre uma alma doente e moribunda.

Porém, o renascimento espiritual não é atingido instantaneamente. As palavras de Cristo para aqueles que creram: "Tua fé te salvou" (Mt. 9: 22) se referem a aquele ponto de virada crucial alcançado por aqueles que decidiram romper com o passado e seguir Jesus Cristo. Sem essa mudança radical no pensamento, qualquer melhoria e progresso espiritual são impossíveis. Naturalmente, depois que a pessoa escolheu o justo caminho, ela deve subsequentemente andar nele, isto é, aplicar seus elevados princípios com paciência e perseverança. Todos os livros do Novo Testamento falam em se trabalhar em si próprio e se tornar mais parecido com Cristo: "De sorte que fomos sepultados com Ele pelo batismo da morte; para que, como Cristo ressuscitou dos mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida" (Mt. 6:4). O que é necessário aqui não é a fé abstrata, mas aquela que age através do amor (Gl. 5:6).

O Apóstolo Tiago firmemente se levanta contra aqueles que separam fé das boas obras, dizendo: "Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo? E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos; e lhes não derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? ... Mas dirá alguém: tu tens a fé e eu tenho as obras: mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. Tu crês que há um só Deus: fazes bem: também os demônios o crêem, e estremecem!" Mais adiante, o apóstolo dá exemplos de homens e mulheres justos do passado que provaram sua fé pelas suas obras, e tira a seguinte conclusão: "Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada. ... Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta" (Tg. 2:14-26).

O Apóstolo Paulo, da mesma forma, não reconhece fé sem seus frutos: "E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria" (I Co. 13: 2). Por isso, o correto entendimento da fé desconsidera qualquer dúvida sobre qual é mais importante — fé ou obras. Elas são inseparáveis, como a luz e o calor de uma chama.

Como reforçar a Fé de Alguém.

Assim, dentre as muitas faculdades e talentos do espírito humano, a fé é o mais precioso dos dons Divinos. A fé alarga os horizontes do homem e dá a ele uma visão apropriada, revela a ele o propósito de sua vida, o encoraja durante períodos difíceis e alegra seu coração, potencializa suas orações e dá a ele uma multidão de tesouros e misericórdias de Deus.

Infelizmente, no entanto, nossa vida de abundância e bem-estar enfraquece nossa fé, e a bondade de Deus cai no esquecimento. Enquanto a fé cresce em obscurecimento, a condição interior do homem se torna crescentemente desordenada; ele perde clareza de pensamento e propósito de vida, sua força espiritual o abandona, vazio e desânimo firmemente se assentam em seu coração, ele se torna irritável e insatisfeito com tudo. Finalmente, a alma não pode viver sem fé, como uma planta não pode viver sem luz e umidade. Não importa quão inteligente e talentoso ele possa ser, com fé extinguida uma pessoa desce para o nível de um animal ardiloso ou até mesmo predador.

Para se escapar de tal "afundamento da fé" (I Tm. 1:19), se deve estar seriamente preocupado com a renovação da alma. Mas como? Nós sabemos que todos os talentos requerem exercícios: para preservar uma mente afiada, ela deve estar engajada com trabalho mental; para que os dedos mantenham sua flexibilidade, é necessário praticar com um instrumento musical; para manter o corpo flexível, é necessário fazer ginástica; e assim por diante. Se as pessoas gastam tanto energia e dinheiro para desenvolver e preservar suas habilidades físicas, não deveríamos, nós Cristãos, nos esforçar para reforçar nossas capacidades espirituais?

Especificamente, para reforçar nossa fé, nós devemos viver espiritualmente. Isso inclui leitura regular das Sagradas Escrituras, meditação sobre Deus e sobre o propósito de nossa vida, jejuando e orando. Quando orando, nós devemos fazer um esforço para nos concentrar no significado das palavras e sentir a presença de Deus. Também é importante se arrepender sinceramente pelos pecados, ir para Confissão e tomar a Santa Comunhão com regularidade. Finalmente, deve-se tentar viver não só para si, mas para o bem dos próximos e da igreja. O coração de alguém que ama é aquecido pela graça do Espírito Santo. Por certo, tentando levar uma vida Cristã não se pode evitar batalhas, provas e dificuldades. Às vezes pode parecer que o mundo todo está armado contra nós. Esses são períodos não desejados, porém preciosos, nos quais nos é dada a oportunidade de crescer espiritualmente e nos tornar melhores Cristãos.

Lutando por reforçar nossa fé, lembremo-nos sempre de que a fé definitiva é um dom do Espírito Santo. O Apóstolo Paulo testemunha isto: "Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança" (Gl. 5:22). Peçamos, então para Deus, , este grande tesouro espiritual. Como Jesus prometeu: "Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei e abrir-se-vos-á" (Mt. 7:7). E enquanto a fé cresce, ela trará consigo paz na mente, alegria e gosto antecipado do triunfo final sobre todo mal. "E esta é a vitória que vence o mundo — a nossa fé" (I Jo. 5: 4).

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Poemas na Fé

Ó, maravilhosa santa Fé

Tu és uma miraculosa corrente,

Tu és a porta da alma para a morada no Paraíso,

Tu és a aurora da vida futura!

Queima em mim, chama da Fé,

Queima mais luminosa, não se vá

Seja em todos os lugares uma fiel companheira para mim

E ilumina o caminho da vida para mim!

K. R.(1852-1915)

Ó meu Deus, eu dou graças

Por Tu me ter dado olhos

Para ver o mundo — Teu eterno templo—

E a terra, o céu e a aurora

Que os tormentos me ameacem

Eu dou graças por estes momentos,

Por tudo que eu entendi com meu coração,

Das quais as estrelas me falaram...

Em todo lugar eu sinto, em todo lugar

Tu, no silêncio da noite,

e na estrela mais remota

e no recôndito de minha alma

Eu quero que minha vida seja

incessante oração para Ti;

para Ti, no meio da noite e na aurora!

pela vida e pela morte — eu agradeço!

D. S. Merzhkovsky (1866-1941)

Bendito é aquele que com sagrada fé

levanta-se, inspira seu espírito

e reforça seu coração, como com uma armadura de aço

para as tempestades da vida.

Para ele provas não são terríveis,

nem o afastamento, nem as profundezas do mar;

pesares e sofrimentos não são terríveis

nem terrível é, o poder da morte.

  1. Ushakov

Folheto Missionário número P26

Copyright © 2004 Holy Trinity Orthodox Mission

466 Foothill Blvd, Box 397, La Canada, Ca 91011

Redator: Bispo Alexandre Mileant

Fonte: https://www.fatheralexander.org/page23.htm